Entre Linhas Sagradas - Parte VI “Quando a Palavra ganhava corpo - escrita em folhas, peles e fé.”
📖 Por Luciana Nóbrega
Antes que existissem os livros como conhecemos, a Palavra já encontrava onde se fixar. Os autores bíblicos usaram os materiais disponíveis no mundo antigo, moldando o eterno com as ferramentas do tempo.
Um dos mais antigos foi o papiro, extraído de uma planta do Nilo. Sua polpa era cortada em tiras finas, sobrepostas em duas direções, prensadas, coladas e polidas. O resultado era uma folha de cor amarelada, escrita de um só lado - frágil, mas suficiente para carregar revelações.
Foi sobre papiro que, muito provavelmente, o apóstolo João escreveu o Apocalipse (Ap 5:1), assim como suas cartas (2Jo 12). Palavras de fim e esperança, impressas sobre uma matéria que já nascia com o tom do antigo.
Outros suportes surgiram do reino animal. Velino, pergaminho, couro - três nomes para diferentes estágios de um mesmo processo: peles curtidas, tratadas, alisadas, preparadas para receber tinta e verdade.
Esses materiais se tornaram comuns a partir dos primeiros séculos do Cristianismo, mas já eram conhecidos bem antes. Isaías 34:4 menciona um livro enrolado - imagem que remete aos antigos rolos, usados nos templos e sinagogas, e que mais tarde seriam substituídos pelos códices.
Nessa transição de superfícies - da folha da planta à pele do animal -, a Palavra se mostrava disposta a habitar qualquer matéria que a recebesse com reverência.
✍️ A tinta era humana. O conteúdo, divino.
Cada superfície carregava mais que palavras: levava promessas, doutrinas, histórias e fé.
📌 Série: Além da Palavra | Bíblia Próximo capítulo: 13 de abril, às 21h.
📚 Entre a planta prensada e a pele curtida, a Palavra foi ganhando corpo. E, com ele, permanência.
A leitura como exercício de responsabilidade intelectual.
LN Blog — Arte, Cultura, MPB e outras Bossas
Luciana Nóbrega Cantora, Compositora, Especialista em Negócios, Administração e Direito.
Transita entre a arte e o pensamento crítico com sensibilidade, atua também na área jurídica com foco em cultura, comunicação e inovação.
Árvores não têm pressa de crescer. Elas sabem que profundidade vem antes da altura. Enraízam-se em silêncio, atravessam tempestades sem se explicar, florescem quando o tempo permite. Cada anel em seu tronco é uma memória — não contada, mas vivida. Árvores não se movem, mas transformam tudo ao redor. E talvez o mais belo seja isso: sua grandeza não grita, apenas se impõe pela presença. Elas nos ensinam que existir, com firmeza e leveza ao mesmo tempo, é uma forma rara de sabedoria.
No Dia Internacional da Mulher, o Livre Expressão abre espaço para revisitar uma canção que ecoa há décadas como um verdadeiro retrato das múltiplas camadas da experiência feminina.
A música “Ser Mulher”, composta por Annamaria Martins Nóbrega, Vanusa e Vanucci, surgiu em um momento em que a discussão sobre o papel da mulher na sociedade ainda começava a ganhar voz pública com mais intensidade. Ao longo do tempo, a obra passou a ser citada por diferentes veículos e pesquisadores como uma das canções precursoras na reflexão sobre as expectativas sociais impostas às mulheres - chegando a ser lembrada como um verdadeiro hino feminino de sua época.
Entre as compositoras está Annamaria Martins Nóbrega - poeta, compositora, intérprete e também artista plástica - cuja trajetória atravessa mais de seis décadas dedicadas à arte e à música brasileira.
Annamaria (grafada artisticamente com dois “n”, por escolha poética) participou de festivais importantes nas décadas de 1970 e construiu uma produção musical que dialoga com diferentes momentos da MPB. Suas composições foram gravadas por artistas como Simone, Vanusa, Marisa Gata Mansa, Célia, e também por seu parceiro musical Daltony Nóbrega, entre outros intérpretes.
Antes mesmo de formar sua família, Annamaria conciliava a produção artística com a formação em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes, além de manter um pequeno espaço onde ministrava aulas de violão - quase um mini conservatório - enquanto participava ativamente de circuitos de shows.
Após o casamento e a chegada das três filhas, manteve-se nos palcos, ainda que tenha encerrado a atividade de ensino para dedicar mais tempo à criação da família. A música, no entanto, nunca deixou de ocupar seu lugar central, mantendo-se ativa em apresentações e shows ao lado de seus parceiros musicais.
Falo aqui também com o olhar de quem viveu parte dessa história de perto.
Annamaria Martins Nóbrega é minha mãe, e desde muito cedo tive o privilégio de acompanhar, ainda criança, os bastidores de seus shows e apresentações ao lado de meu pai, o músico Daltony Nóbrega, que foi meu primeiro professor de música - e permanece sendo um de meus maiores mestres.
Entre palco, ensaios e plateias, aquele ambiente artístico acabou se tornando um dos cenários mais marcantes da minha infância - e foi ali que fiz também minha primeira pequena apresentação musical, ainda menina.
Sempre admirei profundamente a força interpretativa de minha mãe, assim como a musicalidade de meu pai. Ambos, cada um à sua maneira, me ensinaram que a arte é também uma forma de resistência, de expressão e de liberdade.
E talvez por isso “Ser Mulher” continue tão atual.
A letra expõe com sensibilidade - e também com firmeza - as expectativas muitas vezes silenciosas que recaem sobre as mulheres: ser mãe, companheira, cuidadora, trabalhadora, organizadora da casa e, ainda assim, manter-se inteira em seus próprios sonhos.
Escrita décadas atrás, a canção revela que muitas das questões discutidas hoje já estavam sendo cantadas e refletidas na música brasileira de então.
A construção dessa canção também reúne dois outros nomes fundamentais. O compositor e diretor Vanucci, parceiro artístico de longa data de meu pai, Daltony Nóbrega, realizou com ele diversos projetos ao longo dos anos - especialmente na década de 1980, quando trabalharam juntos na criação de especiais infantis para televisão, nos quais Vanucci assumia a direção geral enquanto meu pai respondia pela direção musical. Em muitas dessas produções, ambos também atuaram como roteiristas, algumas vezes em parceria com outros autores, sempre movidos pelo compromisso de levar ao público o melhor da música e da criação artística.
E é impossível falar de “Ser Mulher” sem mencionar a interpretação de Vanusa, que além de coautora da canção possuía uma voz marcante e expressiva, capaz de traduzir com precisão cada palavra da letra, dando à obra uma força emocional que atravessa gerações.
Se por um lado muito foi conquistado ao longo dos anos, por outro ainda seguimos em construção - buscando uma sociedade em que mulheres possam existir plenamente, sem que seus desejos, talentos e escolhas sejam constantemente condicionados por expectativas externas.
Por isso, revisitar “Ser Mulher” neste 8 de março é também reconhecer a força da arte como memória e como voz.
Literatura e crítica social: aproximações necessárias
A leitura como exercício de responsabilidade intelectual.
LN Blog — Arte, Cultura, MPB e outras Bossas
Luciana Nóbrega Cantora, Compositora, Especialista em Negócios, Administração e Direito.
Transita entre a arte e o pensamento crítico com sensibilidade, atua também na área jurídica. Pesquisas e estudos com foco em cultura, comunicação e inovação.