No Dia Internacional da Mulher, o Livre Expressão abre espaço para revisitar uma canção que ecoa há décadas como um verdadeiro retrato das múltiplas camadas da experiência feminina.
A música “Ser Mulher”, composta por Annamaria Martins Nóbrega, Vanusa e Vanucci, surgiu em um momento em que a discussão sobre o papel da mulher na sociedade ainda começava a ganhar voz pública com mais intensidade. Ao longo do tempo, a obra passou a ser citada por diferentes veículos e pesquisadores como uma das canções precursoras na reflexão sobre as expectativas sociais impostas às mulheres - chegando a ser lembrada como um verdadeiro hino feminino de sua época.
Entre as compositoras está Annamaria Martins Nóbrega - poeta, compositora, intérprete e também artista plástica - cuja trajetória atravessa mais de seis décadas dedicadas à arte e à música brasileira.
Annamaria (grafada artisticamente com dois “n”, por escolha poética) participou de festivais importantes nas décadas de 1970 e construiu uma produção musical que dialoga com diferentes momentos da MPB. Suas composições foram gravadas por artistas como Simone, Vanusa, Marisa Gata Mansa, Célia, e também por seu parceiro musical Daltony Nóbrega, entre outros intérpretes.
Antes mesmo de formar sua família, Annamaria conciliava a produção artística com a formação em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes, além de manter um pequeno espaço onde ministrava aulas de violão - quase um mini conservatório - enquanto participava ativamente de circuitos de shows.
Após o casamento e a chegada das três filhas, manteve-se nos palcos, ainda que tenha encerrado a atividade de ensino para dedicar mais tempo à criação da família. A música, no entanto, nunca deixou de ocupar seu lugar central, mantendo-se ativa em apresentações e shows ao lado de seus parceiros musicais.
Falo aqui também com o olhar de quem viveu parte dessa história de perto.
Annamaria Martins Nóbrega é minha mãe, e desde muito cedo tive o privilégio de acompanhar, ainda criança, os bastidores de seus shows e apresentações ao lado de meu pai, o músico Daltony Nóbrega, que foi meu primeiro professor de música - e permanece sendo um de meus maiores mestres.
Entre palco, ensaios e plateias, aquele ambiente artístico acabou se tornando um dos cenários mais marcantes da minha infância - e foi ali que fiz também minha primeira pequena apresentação musical, ainda menina.
Sempre admirei profundamente a força interpretativa de minha mãe, assim como a musicalidade de meu pai. Ambos, cada um à sua maneira, me ensinaram que a arte é também uma forma de resistência, de expressão e de liberdade.
E talvez por isso “Ser Mulher” continue tão atual.
A letra expõe com sensibilidade - e também com firmeza - as expectativas muitas vezes silenciosas que recaem sobre as mulheres: ser mãe, companheira, cuidadora, trabalhadora, organizadora da casa e, ainda assim, manter-se inteira em seus próprios sonhos.
Escrita décadas atrás, a canção revela que muitas das questões discutidas hoje já estavam sendo cantadas e refletidas na música brasileira de então.
A construção dessa canção também reúne dois outros nomes fundamentais. O compositor e diretor Vanucci, parceiro artístico de longa data de meu pai, Daltony Nóbrega, realizou com ele diversos projetos ao longo dos anos - especialmente na década de 1980, quando trabalharam juntos na criação de especiais infantis para televisão, nos quais Vanucci assumia a direção geral enquanto meu pai respondia pela direção musical. Em muitas dessas produções, ambos também atuaram como roteiristas, algumas vezes em parceria com outros autores, sempre movidos pelo compromisso de levar ao público o melhor da música e da criação artística.
E é impossível falar de “Ser Mulher” sem mencionar a interpretação de Vanusa, que além de coautora da canção possuía uma voz marcante e expressiva, capaz de traduzir com precisão cada palavra da letra, dando à obra uma força emocional que atravessa gerações.
Se por um lado muito foi conquistado ao longo dos anos, por outro ainda seguimos em construção - buscando uma sociedade em que mulheres possam existir plenamente, sem que seus desejos, talentos e escolhas sejam constantemente condicionados por expectativas externas.
Por isso, revisitar “Ser Mulher” neste 8 de março é também reconhecer a força da arte como memória e como voz.
Literatura e crítica social: aproximações necessárias
A leitura como exercício de responsabilidade intelectual.
LN Blog — Arte, Cultura, MPB e outras Bossas
Luciana Nóbrega Cantora, Compositora, Especialista em Negócios, Administração e Direito.
Transita entre a arte e o pensamento crítico com sensibilidade, atua também na área jurídica. Pesquisas e estudos com foco em cultura, comunicação e inovação.
Entre Linhas Sagradas - Parte V - “Uma palavra por dia - e nenhuma desperdiçada”
📖 Por Luciana Nóbrega
Muito antes dos telescópios, a Bíblia já falava de um planeta redondo: Isaías, no capítulo 40, versículo 22, descreve Deus assentado sobre “a redondeza da terra” expressão que anteciparia o que Galileu provaria séculos depois.
Há palavras que surgem uma só vez, como a palavra "fé" no Antigo Testamento, encontrada unicamente em Habacuque 2:4. E há outras que se repetem como se desejassem ser ecoadas: A palavra "Deus" aparece 3.828 vezes - 2.658 no Antigo Testamento, e 1.170 no Novo.
Enquanto isso, o diabo é citado 177 vezes, sob diferentes nomes e disfarces. E curiosamente, há dois livros onde o nome de Deus não aparece: Ester e Cantares de Salomão. Mas sua ausência ali é uma presença silenciosa - perceptível nas ações, no enredo, na poesia.
A expressão “Assim diz o Senhor”, ou formas semelhantes, aparece cerca de 3.800 vezes. É como se o próprio Deus insistisse em falar - vezes sem conta - para que o povo ouvisse, lembrasse, obedecesse.
A vinda do Senhor é referida nada menos que 1.845 vezes na Bíblia: 1.527 no Antigo Testamento, e 318 no Novo. É a promessa mais repetida da Escritura - não apenas um fato futuro, mas um fio de esperança que costura a revelação do início ao fim.
E, como uma espécie de abraço diário, a expressão “Não temas” aparece 366 vezes. Uma para cada dia do ano. E uma extra - para os anos em que o tempo se alonga. Como se a graça soubesse até dos bissextos.
✍️ “Palavras que aparecem, somem e se repetem como pistas divinas.”
Há palavras que se escondem, outras que se repetem como batidas do coração divino. A Bíblia fala com a precisão de quem nunca desperdiça um termo.
📌 Série: Além da Palavra | Bíblia Próximo capítulo: 13 de março, às 21h.
📚 Repare nas presenças. E nas ausências também. Tudo comunica.
Literatura e crítica social: aproximações necessárias
A leitura como exercício de responsabilidade intelectual.
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Luciana Nóbrega Cantora, Compositora, Especialista em Negócios, Administração e Direito.
Transita entre a arte e o pensamento crítico com sensibilidade, atua também na área jurídica com foco em cultura, comunicação e inovação.
Cada um caminha no compasso que a alma suporta. Ritmo não é velocidade — é verdade. Há quem precise de silêncio entre notas, outros se encontram na pressa do batuque. O risco está em seguir o passo alheio esquecendo do próprio pulso. Ritmo é o que mantém tudo vivo: o coração, a dança, o tempo. E talvez a maior sabedoria seja essa — encontrar o próprio tempo e honrá-lo, mesmo quando o mundo inteiro desafina ao redor.